23.7.08

Agora sim. Sobre o Batman.

Falemos sinceramente: eu sei que você já viu "O Silêncio dos Inocentes". Sei que você achava que o Jack Nicholson de "O Iluminado" era o melhor vilão de todos os tempos. Você também achou o psycokiller de "Onde os Fracos não têm Vez" genial, aquele esquema da arma de ar e tudo. Hannibal era o seu senhor vilão. Jack Nicholson era a fronteira. Alex, de "Laranja Mecânica", era o cara mais anarquista que você já viu nas telonas - ok, se você tem menos de 25 anos, telinhas. O Diabo de Constantine foi "bem bolado", com aquela roupa branca e aquela aura de Deus, descendo dos ceús com os pés sujos de "algo-que-lembra-lava".

Esqueça tudo. Batman - The Dark Knight é um pesadelo. Não leve seus sobrinhos ou priminhos para assistir. Eles vão chorar com a mágica do lápis. E, se você ainda contar que o Coringa morreu, eles vão se sentir mais ou menos como eu me senti quanto vi "Polthergeist III" e soube que a Heather O'Rourke morreu (a Caroline, lembrou?). Na verdade, o Batman nem aparece. O Batman sumiu, aperte os cintos. Esse não é um filme de heróis, mas um filme sádico, do anti-herói. É o filme dos queimadores de dinheiro, dos terroristas, da loucura inteligente (existe isso?). Não sente perto das caixas de som, o barulho das bazucas, explosões e a trilha do Coringa de Ledger: uma buzina que começa, baixinha. O Batman é um quase-emo.

O filme é baseado na "A Piada Mortal", lançada em 1988. A piada contada pelo Coringa fala de dois loucos que querem fugir de um hospício. Um deles, foge e oferece ajuda para o outro fazer o mesmo através de um feixe de luz de uma lanterna, por onde ele atravessaria para o prédio ao lado. O louco se recusa, questionando se o amigo não apagará a lanterna no meio do trajeto. Essa piada é uma metáfora que se encaixa perfeitamente para os dois personagens: dois loucos que resolveram utilizar máscaras para evitar encarar a realidade dura de "um dia ruim", mas que, um deles, tenta escapar da insanidade através de seus próprios meios, enquanto o outro se recusa a sair dela.

Com o andar do filme, você acaba percebendo que seria inevitável Ledger não encarnar no Coringa. Ele emprestou ao palhaço mortal uma loucura e uma expressão que Nicholson não conseguiu. Ele empresta tiques, caras, jeitos de mexer a boca. É uma coisa tão maníaca que você ri com as loucuras. Ele, vestido de enfermeira conversando com Harvey "Duas-Caras" Dent - aliás, muito bem interpretado pelo ótimo Aaron Eckhaart - pouco antes de o Hospital de Gotham voar pelos ares, é uma das cenas impagáveis do filme.

Assisti sexta, sessão das 21h30 do GNC Praia de Belas. Fui para a fila com uma hora de antecedência. Tinha mais de 100 pessoas na minha frente. Comprei pipoca, outras guloseimas e sentei, nem tão confortavelmente, em uma das fedidas poltronas da sala 3, o maior cinema do Praia de Belas. Essa seção estava ótima, as pessoas aplaudiram na primeira e na última cena de Ledger, uma forma de homenagear o ator. Ironicamente, Ledger perdeu a vida antes de colocar o quase-certo Oscar que vai receber da Academia debaixo do braço.

Mas aviso: o filme é marcado pelo pesadelo da quase-insanidade. É a cara que Heath Ledger deixou, é a impressão que fica a cada cena do Coringa. Ninguém disse que a piada seria feliz, ou boa. No caso dele, ela realmente foi mortal. Foi o preço que ele pagou por ver como o Coringa via. Para isso os remédios, os calmantes. Ele não agüentou. A Heather O'Rourke também não agüentou. A Caroline escutava o maldito padre quando dormia. A Caroline morreu com a Heather. Um pedacinho do Coringa que a gente gostou também se foi com Ledger.

O Coringa de Ledger vai ficar para a história. Bem que o Jack Nicholson avisou.

2 comentários:

Bruna disse...

o Ledger vai ser meu eterno Coringa. Fico feliz por ele ter deixado sua marca, ter conseguido fazer desse filme essa coisa toda intensa e ficar pra sempre na memória de fãs que talvez não seriam seus fãs se ele não tivesse morrido, que talvez comparariam, criticariam um galã e ex-cowboy-viado fazendo um Coringa insano. Eu sei, conheço o tipo de gente insensível que deixaria seu preconceito inabalável estragar tudo, mas foi diferente.
Ao mesmo tempo, fico muito triste de saber que ele não vai aproveitar isso tudo, e nem nos dar outros personagens memóraveis no cinema. =(

P Lay disse...

Nicholson não vai ser lembrado pelo Coringa. Vai ser lembrado pelo Jack, de O Iluminado. Ledger é o melhor Coringa. Matou a pau.

http://meadiciona.com/paolalay/

Pra que eu não esqueça de colar isso no blog.

Vou lavar a louça. Blé.